O Gramado das Nações Condicionais: Corpos, Fronteiras e a Ilusão Global
Invariavelmente, o esporte de alto nível hoje funciona como um espelho da globalização, expondo de forma nítida e, muitas vezes, violenta, as fraturas do racismo estrutural, os desdobramentos do pós-colonialismo e os fluxos migratórios que retratam a demografia do século XXI. Quando um atleta veste a camisa de uma seleção nacional encena-se o drama do "nacionalismo condicional", um pacto social frágil onde o direito ao pertencimento de determinadas etnias é negociado a cada apito final.
A aparente celebração da diversidade nas principais ligas europeias e americanas oculta uma contradição de ordem histórica e econômica. A esmagadora maioria dos atletas que compõem a seleção francesa de futebol, por exemplo, nasceu em solo francês, majoritariamente nos subúrbios periféricos de Paris (les banlieues). Contudo, a ascendência africana ou caribenha de muitos deles frequentemente provoca discursos xenofóbicos que os rotulam como "estrangeiros".
Esse fenômeno é o que a literatura sociológica do esporte identifica como um pertencimento utilitário: o afeto nacional é concedido enquanto há vitória; diante do fracasso, a máscara da tolerância cai. O atacante belga Romelu Lukaku sintetizou com precisão cirúrgica essa dualidade ao afirmar que, quando marca gols, é chamado de "o atacante belga", mas quando falha, é rotulado como "o atacante belga de origem congolesa".
Essa inversão discursiva ignora o próprio lastro do colonialismo. As metrópoles que hoje se blindam contra a imigração construíram sua opulência econômica extraindo riquezas e explorando corpos nos territórios do Sul Global. Ou seja, quando as populações dessas ex-colônias migram para o Ocidente, elas apenas seguem o fluxo histórico das riquezas que foram retiradas de suas terras natais.
Em sua obra Crítica da Razão Negra, o filósofo camaronês Achille Mbembe desvela esse mecanismo ao explicar que o conceito de "raça" foi inventado pelo Ocidente para transformar seres humanos em mercadorias extraíveis. No capitalismo tardio, o esporte de elite sofisticou esse processo: clubes multimilionários europeus e franquias americanas extraem o talento, o vigor físico e a imagem estética de atletas negros e latinos para gerar lucros globais astronômicos, enquanto as comunidades periféricas de onde esses indivíduos emergiram permanecem submetidas à marginalização e à violência institucional.
Há uma profunda insensatez histórica no racismo e na xenofobia dessas sociedades, uma vez que, excetuando-se os povos originários dizimados e silenciados ao longo dos séculos, a totalidade das populações nacionais ocidentais é fruto de deslocamentos e fluxos migratórios. A noção de "pureza" ou de "propriedade" sobre a terra é uma ficção biológica e geográfica. O futebol e o esporte globalizado, portanto, não criaram o racismo ou a xenofobia, mas atuam como seus amplificadores mais potentes e visíveis.
O cenário estadunidense na NBA e na NFL replica a mesma engenharia social sob a égide da segregação pós-regime Jim Crow. Arenas e estádios são lotados por uma audiência majoritariamente branca e de elite que consome e idolatra corpos negros em atividade física, mas que reage com veemência quando esses mesmos atletas rompem o silêncio político. O episódio do quarterback Colin Kaepernick, banido da NFL após ajoelhar-se durante o hino nacional em protesto contra a brutalidade policial, ilustra o imperativo sistêmico de despolitização do trabalhador esportivo. O discurso reacionário sintetizado na frase "cale a boca e jogue" (shut up and dribble) tenta destituir o atleta de sua agência social.
No futebol mundial é a "europeização" que faz com que jovens talentos da América do Sul e da África sejam retirados muito jovens de seus países de origem e convertidos em engrenagens do sistema tático e industrial padronizado daquele continente. Com isso, padroniza-se o consumo cultural, mas não se apagam as feridas da história.
Logo, quando atletas com projeção mundial utilizam o campo, as quadras ou as redes sociais para confrontar torcidas inteiras, expor dirigentes omissos ou ostentar as bandeiras de suas diásporas, eles geram uma fissura no sistema: o esporte deixa de ser o ópio do entretenimento corporativo e passa a ser um espaço de disputa geopolítica e de emancipação.
Fontes:
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. (Utilizado indiretamente para a fundamentação conceitual de nacionalismo e mitos de pureza estatal).
BRYANT, Howard. The Heritage: Black Athletes, a Divided America, and the Politics of Patriotism. Boston: Beacon Press, 2018. (Utilizado como referência direta para a dinâmica política dos atletas negros na NBA/NFL e o caso Colin Kaepernick).
GIULIANOTTI, Richard; ROBERTSON, Roland. Futebol e Globalização. São Paulo: Edições Sesc, 2014. (Utilizado para a compreensão do conceito de padronização tática e mercantilização do futebol moderno).
LES BLEUS: Uma Outra História da França (Les Bleus: Une autre histoire de France, 1996-2016). Direção: Sonia Dauger e David Dietz. França: Black Dynamite Production, 2016. Documentário (103 min). (Fonte audiovisual utilizada indiretamente para a análise das dinâmicas sociais dos subúrbios de Paris e a seleção francesa).
LUKAKU, Romelu. Hashtag. Entrevista concedida ao portal The Players' Tribune, 2018. (Citação direta adaptada inserida no desenvolvimento).
MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. Lisboa: Antígona, 2014. (Referência direta utilizada para fundamentar o conceito de "homem-mercadoria" e a extração econômica de corpos).
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018. (Utilizado indiretamente para a conceituação dos sistemas de fronteiras e controle de populações migrantes).